Por Sergio Canossa*
Em um mercado dinâmico como o que vivemos atualmente no setor automotivo, em que o capital humano desempenha um dos principais valores da empresa, é importante que os gestores de sistemas da qualidade tenham à mão ferramentas que permitam realizar a gestão do conhecimento, independentemente dos recursos que normalmente são empregados nos treinamentos. Entre estas ferramentas, destaco os manuais técnicos e de procedimentos, geralmente disponíveis na norma ISO (em particular a ISO/TS 16949, no setor automotivo).
O conhecimento que vem destes manuais serve para ensinar os procedimentos aos novos funcionários e aos que vieram transferidos de outras áreas, que precisam saber desenvolver a nova atividade. Serve ainda para manter os funcionários remanescentes atualizados. A idéia dos manuais é um dos fundamentos da qualidade no setor automotivo, sendo que a própria norma ISO TS 16949 dispõe de manuais específicos como os de APQP, FMEA, CEP, MSA e PPAP.
Há ainda os manuais aplicáveis aos requisitos específicos de alguns dos principais clientes como a VDA 2 (equivalente alemão do PPAP), a VDA 6.3 de auditoria de processos (uma outra grande referência para atender o requisito de auditoria de processos da TS). É importante que os gestores dos sistemas da qualidade tenham disponíveis alguns exemplares de cada um dos manuais e mantenham disponíveis para estudo e consulta de suas equipes de trabalho.
Cabe aqui um breve resumo explicativo do conteúdo dos manuais já citados, que tem o IQA – Instituto da Qualidade Automotiva, como responsável pela tradução oficial, em português. Assim, o Manual ISO/TS 16949:2002 trás uma versão integral no nosso idioma dos requisitos certificáveis da norma automotiva. Já o VDA 2 é a versão do requisito automotivo alemão para submissão de amostras iniciais, freqüentemente requerido pelas montadoras alemãs aos fornecedores diretos e, algumas vezes aos sub-fornecedores.
O mais conhecido dos manuais que visa a auditoria de processos na organização, o VDA 6.3, é utilizado pelas montadoras alemãs como base para suas exigências de qualidade, tendo a metodologia de avaliação idêntica. Já o manual APQP (Advanced Product Quality Planning) trata de todo o planejamento e desenvolvimento de um novo produto ou processo, considerado o gestor de todo o cronograma de um novo fornecimento ao cliente, e atende exigências do requisito 7.1 e 7.3 da norma.
Os demais manuais requeridos, inclusive os requisitos específicos dos clientes, são previstos através desta metodologia. Ainda que existam versões das montadoras para este manual, tratam-se na verdade de adaptações e adequações aos formatos para atender aos respectivos sistemas da qualidade. Os conhecimentos deste manual, as suas cinco fases de trabalho, direcionam para o atendimento pleno das expectativas dos clientes. Sem um bom domínio deste manual, não é possível a adequada compreensão das versões dos clientes e, também a aplicação correta dos demais manuais.
Na etapa dois do APQP (projeto do produto) e na etapa três (projeto do processo) devemos fazer uso da análise de falhas e riscos do fornecimento, ou FMEA (Failure Mode and Effect Analysis), avaliando o problema sob os critérios de severidade (importância), ocorrência (previsão de freqüência) e detecção (modo de identificar). Diante da experiência da equipe com o produto, determina-se o grau de risco (NPR) e estabelecem-se as ações para reduzir o seu impacto.
Já o CEP (Controle Estatístico do Processo) é uma referência que visa monitorar a variabilidade dos processos e, numa ação preventiva antecipar-se à sérios problemas para que não haja prejuízos ao cliente e nem ao fornecedor. É uma metodologia aplicável diretamente no processo produtivo, usualmente por quem realiza a medição, para monitorar continuamente as características que determinam a qualidade do produto. Tais características são definidas nas etapas de planejamento (APQP) e os riscos analisados no FMEA e desta forma evitando exageros no controle a ser realizado.
Ainda que os meios de medição sejam calibrados (requisito 7.6 da norma) é necessário avaliá-los sob o impacto de um sistema de medição ao qual fazem parte. Este sistema é composto pelo próprio meio de medição, pelo operador, pelo tipo de peça, pelo ambiente em que é realizada a medição e vários outros fatores. O MSA (Measurement Systems Analysis) traz várias metodologias para avaliar se o sistema de medição é capaz de detectar a variabilidade do processo e qual a sua contribuição nos resultados que estamos visualizando ao fazer as leituras. Isto ocorre porque muitas vezes somos induzidos à uma decisão errônea, pois o sistema de medição provoca erros maiores que o próprio processo.
E, finalmente, ao se concluir todo o desenvolvimento do produto ou processo é preciso submeter a amostra inicial ao cliente visando a aprovação para iniciar o fornecimento. Este é o intuito do PPAP (Production Part Approval Process), manual que traz os requisitos necessários para que seja documentada esta submissão e possa ser formalizada a aprovação. Havendo a concordância do cliente a próxima etapa é iniciar o fornecimento como planejado.
É interessante destacar que o conhecimento reunido nestes manuais, além de serem a base para atuação no setor automotivo, tem também se tornado referencial para outros segmentos da economia. E isto não é somente no Brasil. Empresas não atuantes na área automotiva têm buscado informações, manuais e treinamentos nestas metodologias para melhorar a sua qualidade. Além destes manuais é possível encontrar os manuais de regras de certificação ISO/TS 16949 e, em breve, a tradução para o português do manual de Tratamento Térmico e o de Soluções de Problemas. Um novo grupo de conhecimento à disposição.
Mantenha-se atualizado. Leia os manuais para tirar dúvidas, leve-os em reuniões onde a metodologia estiver sendo utilizada, troque experiências na sua empresa, com os clientes, fornecedores e parceiros. Estes manuais devem ser o “livro de cabeceira” de todo o profissional que faz uso destes temas, estejam eles já treinados ou em constante busca de aperfeiçoamento.
*Sergio Canossa é instrutor e auditor do IQA (sergio.canossa@iqa.org.br)
Sergio Canossa
dez/2007